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Vigilância Socioassistencial e o Sistema de Informações na Política Municipal de Assistência Social
outubro 1, 2012

PROGRAMA BEM ME QUER: fortalecendo vínculos desde a gravidez

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EIXO 2: Convivência e Fortalecimento de Vínculos Familiares e Comunitários

 

Introdução

“ A gente não nasce mulher, torna-se mulher.”

(Simone de Beauvoir, 1983)

 

O PAIF – Progama de Atenção Integral à Família expressa um conjunto de ações relativas à acolhida, informação e orientação, inserção em serviços da assistência social, encaminhamentos a outras políticas, promoção de acesso à renda e, especialmente, acompanhamento sociofamiliar. Esse programa é desenvolvido no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS).

Variadas são as ações do PAIF dentre eles, especificamente no CRAS Vitória Região Consolação, o Programa Bem Me Quer Bem.

O Programa Bem Me Quer Bem visa atender às mulheres moradoras da área de abrangência deste CRAS em situação de vulnerabilidade social e, segundo preconiza o MDS, prioritariamente beneficiárias do Bolsa Família.

Após estudos junto a U.S. Consolação, um grande número dessa população é composta por mulheres grávidas, especialmente adolescentes na faixa etária de 10 a 14 anos.

Para esse público, o estado de Minas Gerais desenvolveu uma parceria entre as Secretarias Estaduais de Educação e Saúde para amenizar o problema no estado. Da parceria surgiu o Programa Educacional Afetivo-sexual (PEAS), para atender os adolescentes dentro das escolas e discutir com eles todas as questões relacionadas a sexo e sexualidade. Profissionais que vem desenvolvendo o Programa revelam que mudanças de atitudes através de informações, valores e aspectos culturais podem reverter esse quadro de altos índices de gravidez não planejada em especial na adolescência. Trabalho semelhante é desenvolvido pelo programa de Risco Social desenvolvido pela Prefeitura Municipal de Vitória.

O Programa Bem Me Quer Bem propõe uma metodologia participativa onde permite aos usuários uma atuação efetiva no processo educativo sem considerá-los meros receptores, tal metodologia possibilita que não há saberes a priori e que é através da experiência de cada sujeito que é possível a reflexão e a tomada de decisões para a vida de cada um, valorizando seus conhecimentos e informações. Tal metodologia facilita os processos de reflexão pessoais, interpessoais e de ensino-aprendizagem, integrando o grupo e estabelecendo vínculos de afetividade e respeito mútuo. Além de valorizar os conhecimentos e experiências dos participantes, envolvendo-os na discussão, pela identificação e busca de soluções para problemas que emergem em suas vidas cotidianas.

 

Objetivos

 

-Contribuir para a prevenção e o enfrentamento de situações de vulnerabilidade e risco social; -Fortalecer os vínculos familiares e comunitários;

-Promover aquisições sociais às famílias, com o objetivo de fortalecer o protagonismo e a autonomia das famílias e comunidades.

-Refletir sobre afetividade e sexualidade; -Refletir sobre a maternidade e paternidade responsável; -Sensibilizar para a importância do planejamento familiar;

-Fortalecer a figura feminina de cada participante (protagonismo);

-Apoiar as participantes nas trocas de experiências cotidianas (frustrações e/ou êxitos);

 

Referencial Teórico e Metodologia

 

“Por enquanto sou pequeno, muita coisa eu nao sei.

Eu só sei que estou gostando deste mundo onde cheguei. Não me apressem por favor, sei que ainda não cresci. Mas vejam que estou tentando, me esperem que eu chego ai.”

(Pedro Bandeira)

 

O Brasil vem, desde 1980, desenvolvendo instrumentos jurídicos e políticos na busca da redemocratização do país. Tal fato pode ser constatado pela conquista de direitos sociais, civis e políticos e pela visibilidade das demandas de movimentos sociais, que discutem os direitos humanos, a cidadania, o controle social das políticas públicas e a participação política.

Na busca em redesenhar uma política que não priorize o clientelismo, assistencialismo e caridade, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS elaborou e aprovou a Política Nacional da Assistência Social – PNAS (2004) a fim de garantir promoção social a todos que dela necessitar.

Promover cidadania é um dever das Políticas Públicas e realizar ações que sejam facilitadores deste processo é o objetivo primeiro dos Centros de Referência da Assistência Social – CRAS. Na perspectiva da defesa dos direitos e da cidadania, e frente a processos de fragilizações da mulher, o CRAS Consolação buscou desenvolver um Programa para discutir junto a essa mulher, relações de gênero, sexualidade, afetividade, família e cidadania.

Sendo o público de maior incidência no CRAS Consolação, a equipe acredita em um espaço de discussão promovido por essas mulheres, mães, chefes de família, filhas a respeito de sua realidade e sobre preconceitos, estereótipos e a responsabilidade a elas delegada em seu núcleo familiar.

O psicólogo Ivan Capelatto coloca em seu texto “Educação com Afetividade” traz o conceito de Afetividade:

 

A afetividade é a dinâmica mais profunda e complexa de que o ser humano pode participar. Inicia-se a partir do momento em que um sujeito se liga a outro pelo amor, sentimento único que traz no seu núcleo um outro, também complexo e profundo: o medo da perda. Quanto maior o amor, maior o medo da separação, da perda e da morte, o que acaba desencadeando outros sentimentos, tais como o ciúme, a raiva, o ódio, a inveja, a saudade… A afetividade é a mistura de todos esses sentimentos, e aprender a cuidar adequadamente de todas essas emoções é que vai proporcionar ao sujeito uma vida emocional plena e equilibrada. ( CAPELLATO, 2009, pg. 09)

 

Trazer a afetividade como ponto norteador das discussões, coloca a solidariedade e cidadania como tema que perpassa as participantes no seu dia a dia. Segundo Ivan Capelatto, o cuidar de si, dos outros e do meio ambiente são imprescindíveis na construção do ser humano. Capelatto traz ainda que:

 

cuidar é um ato consciente que pode ser ensinado, e consiste, por sua vez, num dos maiores geradores de prazer que o mundo humano conhece. Cuidar adequadamente dos outros como de si mesmo pode ser o início de uma grande transformação, tanto do ponto de vista individual como do ponto de vista social. (CAPELATTO, 2009, pag. 08)

 

A afetividade consegue determinar o modo com que as pessoas visualizam o mundo e também a forma com que se manifesta dentro dele. Todos os fatos e acontecimentos que existiram na vida de uma pessoa trazem recordações e experiências por toda a sua história. Dessa forma, a presença ou ausência do afeto contribui para a forma com que um indivíduo se desenvolverá. Também para a auto-estima das pessoas a partir da infância, pois quando uma criança recebe afeto dos outros consegue crescer e desenvolver com segurança e determinação.

O Programa Bem Me Quer Bem busca trabalhar a importância da família no contexto da vida social como forma de garantir a proteção integral a todos os seus membros. Sobretudo numa tntativa de evitar maus-tratos, negligência, abandono, desagregação familiar, violência/abuso sexual, dentre outras que são situações que afetam o convívio familiar e podem acarretar problemas relativos ao desenvolvimento da sexualidade, auto-etima, à baixa escolaridade, à gravidez não planejada.

O Programa Bem Me Quer Bem traz uma visão inovadora pautada em uma dimensão ética, onde a comunidade apresenta riscos e vulnerabilidades bem como recursos e possibilidades para enfrentá-las.

Assim como o PEAS e o Programa de Risco Social, o Bem Me Quer visa identificar forças e não fragilidades que as diversas situações de vida apresentam além de construir junto as participantes o referencial político para a busca dos direitos da mulher.

Quando se trata de mulheres adolescentes grávidas, maior é o cuidado quando se trata de afetividade.

Para a gestante adolescente pode-se perceber ainda muito mais um papel de filha do que de mãe. O fato de muitas gestantes adolescentes partilharem com suas próprias mães o cuidado da criança, ou até mesmo entregarem a criança para que cuidem, poderia ser entendido como uma confirmação de por vezes as adolescentes evitam sua saída total do papel de filha, mantendo-se o vínculo de dependência até então existente com a mãe (Coley e Chase-Lansdale, 1998).

Digamos ainda que todo bebê nasce prematuro do ponto de visto psíquico, desamparado, dependente, e que esta condição, chamada por Freud de desamparo primordial (FREUD, 1950), é constitutiva do ser humano, pois o empurra para o amor na medida em que cria uma necessidade vital, qual seja, ser adotado afetivamente para que sobreviva.

O Programa Bem Me Quer foi desenvolvido no Centro de Referência da Assistência Social (CRAS Vitória) Região Consolação, a fim de ser mais uma vertente do Programa de Atenção Integral à Família – PAIF visando acompanhar famílias em situação de vulnerabilidade social de regiões das áreas de abrangência deste Centro através da territorialização.

O Programa foi dividido em módulos e cada módulo foi desenvolvido aproximadamente durante por 4 meses. Ao final de um ano, os participantes se assim desejassem, poderiam continuar o acompanhamento em um Grupo Cidadão ou outro Programa dentro dos âmbitos do PAIF.

O programa conta ainda com uma equipe interdisciplinar que trabalha temas pertinentes as participantes no que tange o fortalecimento de vínculos, maternar, cidadania e (re)significação da relação familiar.

Da mesma forma que as famílias são acompanhadas pelo PAIF, as participantes do Bem Me Quer estarão sendo atendidas individualmente pelos técnicos que também as acompanharia nas reuniões do grupo (de convivência); participação em outras atividades do CRAS (Ações SócioEducativas- ASEF´s, Oficinas Motivacionais, e em vivências com metodologia participativa, onde as usuárias são convidadas a serem protagonistas de suas próprias histórias e a pensarem sobre sua realidade e perspectivas do futuro de sua família, de seus filhos e delas mesmas).

A equipe interdisciplinar (Psicologia e Serviço Social) desenvolveu os temas de acordo com os módulos mais adiantes descritos, porém não se atendo de maneira estática visto a prioridade a demanda apresentada pelo próprio grupo.

 

MÓDULO I – FEMINILIDADE

 

A partir da produção de sentidos, visualizamos como os(as) adolescentes e adultos significam a situação vivenciadas por eles. Evitando-se os profissionais transmitir a sensação de “donos do sabe” para despertar compartilhamento dos que ali se fazem presentes.

Despertar os desejos femininos trazem em sua vertente o despertar o maternar.

A equipe trabalhou a inclusão dos direitos da mulher em serviços públicos e de maneira geral (direitos humanos) para reforçar a cidadania das gestantes e nutrizes.

O cuidado traz a atenção da participante para determinado foco, podendo ser uma parte do seu corpo, podendo ser um cuidado emocional, podendo ser um filho. Quando se exercita o cuidar, todos que estão próximos são disponibilizados a serem potenciais seres a serem cuidados.

 

MÓDULO II – GESTAÇÃO

 

Para tal é importante que pensemos na assertiva popular que ―quando nasce uma criança nasce também uma mãe. Socialmente, e isto pode ser reafirmado pela assertiva popular colocada, espera-se que toda mulher que acaba de ter um filho se torne uma mãe com todos os estereótipos que este nome carrega como disponível, atenciosa, meiga, carinhosa, enfim, que cumpra sua função materna.

A gravidez denuncia mais que rompimento da posição de filha, mais que um refazimento de posições familiares, ela traz consigo o significante renúncia. Fisicamente a renúncia é ao corpo de menina, em primeira instância, e ao corpo de grávida num segundo tempo. Psiquicamente a renúncia é do imaginário tal como construiu o filho idealizado, onipotente, capaz de realizar tudo aquilo a que os pais não alcançaram, posto que não há consonância entre o bebê da fantasia parental e o filho nascido, principalmente quando o nascimento se dá de forma prematura, como no caso clínico.

Eduardo de Sá, psicólogo especialista em desenvolvimento do bebê, confirma:  “o amor materno não é uma característica inerente a todas as mãe”. Ou seja, nem todas as mulheres que têm um filho se tornam mãe. Não é porque não o desejem, mas porque não conseguem compatibilizar os seus lados animal e a sua racionalidade clarividente de mãe.

A razão prende-se com o fato se serem muitas vezes atropeladas por muitos acontecimentos que não controlam. Mas é possível conquistar o instinto materna. Entre os muitos caminhos possíveis para o fazer, Eduardo de Sá aponta o do amor: “as mulheres mais amadas são melhores mãe”.

Françoise Dolto e Maud Mannoni, a partir da riqueza de suas clínicas, situaram o não-lugar dado ao filho.

Maud Mannoni apontava: “a doença da criança constitui o lugar mesmo da angústia materna”, afirmando que há momentos na análise da criança em que é a mãe que está em questão e é a ela que a escuta deve ser oferecida.

 

MÓDULO III – MEU BEBÊ

 

Para tanto é preciso que exploremos o que venha a ser sujeito para a psicanálise, posto que não basta que uma criança nasça para que seja assim encarada por esse saber, não basta um corpo biológico nem mesmo um indivíduo nomeado. Sujeito é algo construído, constituído no campo do Outro, da linguagem, da palavra que antecede o nascimento e que é tomada pela criança, apropriada por ela pela operação da alienação, (…) o sujeito só é sujeito por seu assujeitamento ao campo do Outro, o sujeito provém de seu assujeitamento sincrônico a esse campo do Outro (LACAN, 1964 p.178).

A mãe (função materna) desempenha neste primeiro momento da vida de um bebê esta posição de Outro, quando traduz o choro como vontade de mamar ou dor de barriga, quando traduz por medo de algo o Reflexo de Moro, enfim, a mãe põe sentido nas reações até então involuntárias do filho, transformando um alarido em demanda.

Outro momento de grande importância na constituição do sujeito é a inscrição do desejo que, partindo do desamparo primordial, a mãe oferece uma ação específica que satisfaça o incômodo do bebê, propiciando a primeira experiência de satisfação e instaurando uma condição na criança de para sempre se movimentar na busca de retornar à situação de satisfação original.

Para que a criança “seja”, parece-nos, com efeito, que ela deva estar presa em múltiplas redes de “atenção” a seu respeito. Certo tipo de comunicação, um modo de tocá-la, de responder a seu olhar, de endereçar-se a ela, enquanto humano endereçando-se a outro humano, habitado por seus afetos, pensamentos, desejos. É esse endereçamento ao outro, capturado na linguagem, que nos parece estar, para além das palavras, operando para a criança (MATHELIN, 1999,p. 44).

A função simbólica, que nos ajuda a compreender a dependência do bebé em relação aos pais e ao seu papel que estes detêm na sua satisfação e prazer, é «responsável pela particularidade de cada ser humano, segundo todo o tipo de modalidades impressivas que acompanham a sua sobrevivência e o seu desenvolvimento até à maturação completa do seu sistema nervoso, dos dezoito aos vinte e cinco meses», declara Françoise Dolto.

Alguma décadas depois de Dolto, hoje confirma-se plenamente que a forma como as crianças são cuidadas desde a mais tenra idade e ao longo dos seus primeiros anos de vida, tem um impacto decisivo e imenso na forma como elas irão reagir muitos anos depois, na sua vida de adultas, não só às dificuldades como ao modelo de relações que irão estabelecer com os outros.

 

MÓDULO IV – A FAMÍLIA

 

A família sempre é procurada para desenvolver as ações do PAIF, no Programa Bem Me Quer não seria diferente. Todos são convidados a participar das atividades do Programa mesmo sabendo que em sua maioria são as mulheres as responsáveis pelo maior número de participação em tais atividades. Em qualquer que seja seu arranjo, a família é um núcleo de convivência, unido por laços afetivos, que costuma compartilhar o mesmo teto. Entretanto, esta convivência pode ser feliz ou insuportável, pois seus laços afetivos podem experimentar o encanto do amor e a tristeza do desafeto. A equipe CRAS Consolação entende família como uma semente que necessita de cuidados constantes para crescer e desenvolver-se.

 

Resultados

 

A partir deste trabalho obtivemos como resultado o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários, fortalecimento de agente multiplicadores sociais, acesso aos serviços da rede socioassistenciais, adesão as atividades desenvolvidas pelo poder público e ONG`s além do fortalecimento do protagonismo, melhoramento de auto-estima, das articulações com a rede sócio assistencial.

O programa buscou através de sua metodologia, trabalhar as famílias no sentido do fortalecimento das funções familiares desenvolvidas no interior do seio familiar.

Através do trabalho junto a auto estima, o grupo buscou refletir funções sociais e as possiblidades de cada núcleo familiar da forma como se constituem. Mães refletiram sobre a importância de seu papel e reconheceram a participação de cada uma na construção familiar de seus filhos.

 

Referências Bibliográficas

 

ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICOLOGIA, UERJ, RJ, ANO 7, N. 1, 1º SEMESTRE DE 2007. GUARESCHI, N.; BRUSCHI, M. F. Psicologia Social nos Estudos Culturais: perspectivas e desafios para uma nova psicologia social. Porto Alegre: Vozes, 2003.

CAPELATTO, Ivan Roberto. Educação com Afetividade. http://www.facaparte.org.br/new/download/capelato.pdf. Site visitado em 22/03/2009. CASTRO, Ana Vieira de. Necessidades básicas do bebê. http://www.mae.iol.pt/artigo.php?div_id=3635&id=849884. Site visitado em 08/03/2009. LIMA, Glaucineia Gomes de. Da mãe a mulher: os circuitos do amor, desejo e gozo. http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-27072007-011820/. Site visitado em 24/02/2009.

REVISTA ON-LINE BOA SAÚDE, Maternidade na adolescência. http://boasaude.uol.com.br/lib/ShowDoc.cfmLibDocID=3999&ReturnCatID=690#Introdução . Site visitado em 22/03/2009.

RIANI, Anna Costa Pinto Ribeiro. A Psicanálise na clínica com bebês. http://www.psicanaliseebarroco.pro.br/revista/revistas/obras/psicanalise%20na%20clinica%20c om%20bebes.doc . Site visitado em 03/06/2009.

Graziella Almeida Lorentz, Luciana Pereira Nascimento Vieira

(Artigo Apresentado I Jornada Científica da Assistência Social de Vitória-ES, 2011 )

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